
Por Leandro Albani
As imagens são assustadoras: homens degolados e pisoteados, uma miliciana curda das Unidades de Proteção das Mulheres (YPJ) assassinada e seu corpo arremessado de um edifício, milhares de mercenários do Estado Islâmico (ISIS) libertados de prisões do norte e do leste da Síria. Essas imagens mostram o que o regime de Ahmed al Sharaa (conhecido em sua versão jihadista como Mohammed al Jolani) tem a oferecer à Síria.
A traição dos Estados Unidos às Forças Democráticas Sírias (SDF) e à Administração Autônoma do nordeste do país (AADNES) é um fato. As forças de autodefesa curdas, árabes, assírias, armênias e turcomanas que lutaram no terreno contra o ISIS, que deixaram no caminho mais de onze mil combatentes martirizados, e que há doze anos propõem um projeto político e social para o país onde a prioridade seja a democracia, a convivência e a defesa irrestrita do direito das mulheres, nestes últimos dias parecem naufragar.
Na Síria, o ISIS está mais vivo do que nunca, desta vez camuflado em uma infinidade de milícias que respondem ao regime de Damasco e são apoiadas pelo Estado turco.
A perda de Deir Ezzor e Raqqa, administradas pela AADNES, e a deserção de tribos árabes que participavam da Administração Autônoma e que agora, rapidamente, chegaram a acordos com Damasco, levaram Rojava (região curda da Síria) a atravessar um perigo iminente. Um perigo que, se não for detido, pode desembocar em um massacre de curdos e curdas. O regime de Damasco sabe dessas coisas: em menos de um ano cometeu massacres contra os povos alauíta (na costa mediterrânea do país) e druso (no sul da Síria).
Desde as SDF e a AADNES tentaram chegar a um acordo o mais justo possível com Damasco, mas no início de janeiro o regime de Al Jolani (que pode ser qualificado como uma franquia turca na Síria) fechou abruptamente o diálogo e lançou ataques massivos contra os bairros curdos de Sheikh Maqsoud, Ashrafiyah e Bani Zayd, em Aleppo, que foram o prólogo dos dias que viriam.
Nos últimos dias, o governo estadunidense de Donald Trump definiu sua política para a Síria: um barril de petróleo vale mais do que uma vida humana. Algo que já havia antecipado semanas antes com os bombardeios sobre Caracas, a capital da Venezuela. Nem Trump nem a classe política estadunidense se interessam pelos acordos assinados com as SDF para combater os remanescentes do ISIS. Por isso, nestas últimas horas, podem ser vistos vídeos de como os jihadistas do regime de Damasco libertam milhares de mercenários das prisões que estavam sob o controle da AADNES.
O projeto em Rojava não é uma ilusão nem uma miragem. Durante doze anos, homens e mulheres da região buscaram aparar suas diferenças, sobretudo vinculadas ao étnico e ao religioso, apresentaram uma estrutura político-administrativa inovadora, regida por um sistema de copresidências (um homem e uma mulher), apostaram em reforçar os vínculos comunitários diante da perseguição que durante décadas sofreram por parte do Estado e abriram centenas de espaços de participação para as mulheres.
Mas o Grande Jogo Geopolítico dos Poderosos e seus Peões parece estar ganhando a partida. A cidade curda de Kobane, que em 2015 e 2016 se tornou um bastião contra o ISIS, agora está cercada por milhares de jihadistas que saboreiam sangue.
O regime de Damasco anunciou no domingo um cessar-fogo integral, mas suas próprias milícias o descumprem hora após hora. E em seu caminho deixam um rastro de mortes e destruição. Porque está muito claro que, enquanto os povos de Rojava oferecem uma vida carregada de humanidade, os adeptos de Al Jolani celebram os assassinatos, a perseguição e a entrega da soberania do país aos Estados Unidos, à Turquia e a Israel. Ou acaso não há dúvidas de que Al Jolani negociou com Washington, Ancara e Tel Aviv os massacres que suas milícias cometem nestes dias no nordeste do país? E que os governos desses países aprovaram “reconstruir” uma “nova Síria”, onde os métodos do ISIS sejam lei?
Há muitos anos, os e as representantes das SDF e da AADNES sabiam que os Estados Unidos poderiam traí-los. Em centenas de declarações e entrevistas explicaram, uma e outra vez, que diante da negativa de outros países em apoiá-los em sua luta contra o ISIS, Washington, por conveniência própria, encarregou-se de prestar apoio militar. Nestes anos, as SDF carregaram com a responsabilidade, em total solidão, de proteger prisões e campos de refugiados onde mais de setenta mil milicianos do ISIS e suas famílias transformaram o território em uma bomba-relógio. Essa bomba já começou a explodir e a responsabilidade é do regime sírio e de quem permitiu que seus jihadistas avancem a sangue e fogo sobre as regiões geridas pela AADNES.
Por estas horas podem ser lidas muitas “críticas” aos curdos por seus vínculos com os Estados Unidos. Mas por que aqueles que fazem essas críticas nunca se perguntaram as razões pelas quais Rússia, Irã, China ou os governos da América Latina, sejam de direita ou de esquerda, nunca fizeram nada pelo povo curdo ou se interessaram pelo projeto que a AADNES colocou sobre a mesa mais de uma vez para democratizar a Síria?
Os próximos dias serão decisivos para os curdos da Síria. Ao escrever este artigo, o comandante em chefe das SDF, Mazloum Abdi, está reunido em Damasco com Al Jolani. O que surgir desse encontro pode definir a sobrevivência dos curdos e que o projeto de Rojava tenha tempo de se reestruturar e, sem perder suas raízes, continue em meio a uma guerra de agressão que tem as milícias jihadistas como ponta de lança, mas que em sua execução real conta com o longo braço do Estado turco.
“Defender Rojava é defender a humanidade” é uma consigna que nos últimos anos os curdos deram a conhecer para destacar a importância de sua luta contra o ISIS e demais forças jihadistas. Erguer e gritar essa consigna é, nestes dias, um imperativo de quem luta por um mundo mais justo, onde o patriarcado não seja lei e no qual a vida valha muito mais do que um barril de petróleo.
Publicado em Nueva Revolución / Tradução ptbr: Editora Terra sem Amos

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